Sexta-feira, Julho 10, 2009

Palavras com som ou Já falta pouco ou Em estágio...

(Dave Matthews Band, "You and Me" )

Quinta-feira, Julho 09, 2009

Palavras com som ou Gosto do efeito do clarinete

(Duke Special,"Our Love Goes Deeper Than This")

No mar

Entrou no mar com passos lentos mas decididos.
Quando a água gelada lhe beijou a pele quente não recuou.
Avançou com uma determinação que suspeitava ter, mas que nunca tinha posto à prova.
Nunca vacilou. Não olhou para a areia dourada e morna uma única vez.
Seguiu até mergulhar sem aparato. Não, na verdade não foi um mergulho. Afundou-se.
Deixou-se deslizar devagar, de olhos abertos e ficou a ver as bolhas de ar que lhe escapavam da boca e os cabelos a flutuarem como se não lhe pertencessem.
Quando tornou à superfície viu-se só. Longe da praia. Sem pé. Mal sabia nadar. Talvez tenham sido as ondas que se apiedaram e cuspiram para terra o corpo cansado.
Não sabe quanto tempo andou no mar.
Com o corpo ainda arranhado e dorido, voltou à água.
Correu, como num desafio e mergulhou.
Mergulhou de cabeça. Mergulhou de corpo e alma.
Não abriu os olhos quando se lançou e não percebeu que o mar não convidava a mergulhos cegos. Regressou à praia.
O mar chama. O mar tem uma canção que inebria.
Passeia-se na beira da água, onde a espuma das ondas rebenta em gotas de luz, mas não deixa que a água lhe passe da cintura.
Quer mergulhar. Precisa de nadar. Tem medo do mar.

Quarta-feira, Julho 08, 2009

"Para atravessar contigo o deserto do mundo" ou Porque ando perdida nas palavras dos outros

Para atravessar contigo o deserto do mundo
Para enfrentarmos juntos o terror da morte
Para ver a verdade para perder o medo
Ao lado dos teus passos caminhei
Por ti deixei meu reino meu segredo
Minha rápida noite meu silêncio
Minha pérola redonda e seu oriente
Meu espelho minha vida minha imagem
E abandonei os jardins do paraíso
Cá fora à luz sem véu do dia duro
Sem os espelhos vi que estava nua
E ao descampado se chamava tempo
Por isso com teus gestos me vestiste
E aprendi a viver em pleno vento


Sophia de Mello Breyner Andresen
Livro Sexto (1962)

Palavras com som

(Arcade Fire,"Keep The Car Running")

Terça-feira, Julho 07, 2009

Porque depois da "tempestade" ...

...ou Outra maneira de pedir desculpa.

Não gosto de perder as estribeiras, controlo-me bastante e domino o meu génio mau, procurando descomplicar e relativizar os meus fantasmas.
Mas, às vezes, o gatilho dispara e acorda em mim aquilo que tenho de mais negro e fundo.
Aquele meu lado que mais me assusta, espreita, e a avalanche que liberta, cai sobre quem está mais perto.
Perco a razão do que digo e enrolo-me nos meus argumentos, porque me afundo no abismo contra o qual luto todos os dias.
Mas quando a manhã chega, a noite deixa de parecer tão escura...

Palavras com som

(The Gossip,"Heavy Cross")

Segunda-feira, Julho 06, 2009

Porque eu tenho a mania que sei coisas

Andamos todos ao mesmo.
A diferença está no simples facto de alguns de nós o admitirem e assumirem sem falsos pudores, enquanto outros tentam escamotear sob camadas de gestos estudados e bonecos bem montados, como personagens de um circo tantas vezes infernal, os mesmos desejos, medos, sonhos e ansiedades.
No fundo, procuramos alguém que nos aqueça os pés nas noites frias e que nos faça tremer de antecipação ao mero som da voz.
Queremos sentir o frémito do desejo e a grandeza da paixão.
Queremos amar e ser amados.
Sentir que podemos encostar a cabeça e confiar.
Estar em casa, em alguém que nos conheça as falhas e os defeitos sem julgamentos, ao mesmo tempo que nos sabe as virtudes e aceita por aquilo que somos, independentemente de encaixarmos, ou não, naquele perfil idealizado que qualquer pessoa tem, por mais maleável que seja às circunstâncias.

Vem isto a propósito de uma conversa que tive durante o almoço, na qual constatámos que, por mais distintas que sejam as vivências, no nosso grupo alargado de amigos e conhecidos, esta busca, que às vezes se torna em fuga e negação, nos toca a todos.

Eu assumo que quero nada menos que a plenitude de um relacionamento a dois.
Não aspiro à perfeição, porque isso, simplesmente, não existe e eu, no meu largo somatório de falhas, defeitos e erros estou muito longe disso.
Não almejo perfeições e fujo o mais que posso das idealizações, minhas e dos outros, que acabam por ser muito redutoras e, invariavelmente, nos levam por caminhos ínvios.
Acredito honestamente que as relações bem sucedidas se constroem sobre bases tanto mais profundas e sólidas, quanto maior for o empenho de ambos e a vontade genuína e assumida de ultrapassar as diferenças e as dificuldades que, naturalmente, existem entre indivíduos distintos.
Acredito no compromisso de parte a parte, nunca na anulação, que é algo que a curto/médio prazo até pode dar dividendos, mas que com o tempo, se torna insustentável.
O sexo, por muito bom que seja, embora fundamental, não é a cola numa relação a longo prazo e, na minha humilde maneira de ver a vida, o que faz duas pessoas caminharem juntas na construção de um caminho comum não começa na cama, mas antes nos gestos quotidianos dos pequenos grandes nadas.
Aquilo que nos sustém é a honestidade, o compromisso e a partilha da intimidade construída numa base diária. É acordar de manhã e dizer: "Não te vou deixar cair. Segura-me…”

Sábado, Julho 04, 2009

Palavras com som

(Ute Lemper,"The case continues")

Abraço

Foi quando te abracei que tive a noção do quanto sentia a tua falta.
Tenho saudades de ti e não sabia, ou preferia fingir não saber…
Não consegui suster o teu olhar, talvez por ter receio do que lá pudesse ver e não quis que lesses em mim aquilo que não te posso contar.
Não tenho palavras para te dar e as conversas que não chegámos a ter cresceram entre nós como um rio que não se atravessa a vau.

Teria chegado a amar-te. Ambos sabemos que é verdade.
Eu ter-te-ia amado com devoção e honestidade e tu sabes que aqui serias feliz.

Por mais que os nossos caminhos se afastem, por mais longe que esteja de ti, nunca entenderei porque te foste embora naquela noite de inverno.
Sabes que te esperei mesmo depois de todas as estações rodarem? O calendário diz-nos que estamos no Verão outra vez...

Quando te abracei, por instantes, julguei que era assim que o mundo fazia sentido, mas também sei, melhor que tu, que deixei de te esperar.

Sexta-feira, Julho 03, 2009

Invicta


De cada vez que vou ao Porto, trago em mim a vontade crescente de lá regressar brevemente, sem ser na correria das obrigações e horários do trabalho. Por uma razão ou outra esse namoro tem sido adiado, mas não quero esperar muito mais para me encantar naquelas ruas que me chamam…